Acre

Ministério Público do Acre vai apurar morte de professora em Rio Branco

por Altino Machado 23/01/2026 21:05 

O Ministério Público do Estado do Acre (MPE-AC) vai instaurar providências preliminares para apurar as circunstâncias da morte da professora aposentada Nadir Nazaré Gomes de Souza, de 84 anos, ocorrida na manhã de quinta-feira, 22, em Rio Branco. A paciente faleceu após dar entrada no Pronto-Atendimento da Unimed para a realização de um procedimento considerado simples e rotineiro: a reposição de sódio para correção de hiponatremia.

De acordo com informações prestadas pela família, a prescrição médica indicava a administração intravenosa lenta de sódio, ao longo de aproximadamente oito horas, protocolo adotado para reduzir o risco de danos neurológicos. No entanto, segundo os relatos, a infusão teria sido realizada em cerca de uma hora e meia, em razão de falha na bomba de infusão e ausência de monitoramento adequado.

Ainda conforme a família, a administração acelerada alterou o quadro clínico da paciente, com episódios de taquicardia, duas paradas cardíacas e, posteriormente, a constatação de lesão neurológica irreversível. Dona Nadir foi transferida para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde permaneceu internada por 11 dias, até o óbito.

O MPE informou que, nos próximos dias, ouvirá familiares que acompanharam o atendimento prestado à professora durante a internação, com atenção especial ao professor Sérgio Roberto Gomes de Souza, filho da paciente. Ele é docente do curso de História do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade Federal do Acre (Ufac).

Após a oitiva dos familiares, o Ministério Público deverá instaurar inquérito criminal, com a participação da Polícia Civil na apuração dos fatos. Segundo o órgão, não será necessária a lavratura prévia de boletim de ocorrência pela família. Diante da complexidade técnica do caso, o MPE estuda designar um promotor de Justiça para acompanhar o procedimento de forma exclusiva.

A Associação de Docentes da Universidade Federal do Acre (ADufac) divulgou nota pública em que manifesta solidariedade ao professor Sérgio Roberto, aos familiares e amigos da professora e cobra esclarecimentos da operadora de saúde. No documento, a entidade exige que a Unimed “preste informações objetivas, técnicas e transparentes sobre as circunstâncias que levaram à morte da professora”.

Procurada pela imprensa, a Unimed informou, por meio de sua assessoria de comunicação, que não comentaria o caso. A empresa declarou que eventual manifestação ocorreria apenas diretamente à família.

O advogado Leandro do Amaral de Souza, neto da professora, afirmou que a família não pretende manter tratativas diretas com a operadora de saúde.

Nosso plano é registrar boletim de ocorrência e procurar o Ministério Público do Acre para solicitar a abertura de inquérito criminal. Todas as providências serão adotadas no âmbito policial, do Ministério Público e do Judiciário, inclusive com ação cível por danos morais.

O professor Sérgio Souza também se manifestou:

Após a morte de nossa matriarca, não há mais nada a tratar diretamente com a Unimed. O silêncio da empresa diz muito. Agora é tarde.

Segundo a família, nas últimas 24 horas surgiram novos relatos sobre o atendimento prestado pela unidade de saúde. Entre eles, declarações atribuídas a funcionários da própria empresa, segundo as quais não houve treinamento adequado para a operação de bombas de infusão utilizadas na reposição de sódio e outros eletrólitos — equipamentos de alta precisão, fundamentais para garantir a segurança da terapia intravenosa e evitar infusões rápidas com risco de complicações graves.

A família afirma ainda ter recebido áudios atribuídos a integrante da gestão local da Unimed, nos quais servidores seriam orientados a recorrer a vídeos disponíveis na internet para aprender a operar o equipamento. As informações deverão ser analisadas no âmbito da investigação conduzida pelo Ministério Público.

O corpo da professora foi enterrado às 10h da manhã desta sexta-feira, 22, no cemitério Morada da Paz, com a presença de familiares e amigos, todos revoltados com o atendimento da Unimed que culminou em morte.

ATUALIZAÇÃO | Nota pública sobre o caso professora Nadir Nazaré Gomes:

O Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) informa que acompanha com atenção o caso da morte da professora aposentada Nadir Nazaré Gomes, de 84 anos, ocorrida na manhã de quinta-feira, 22, em Rio Branco, após atendimento médico na rede privada de saúde.

Informa, ainda, que na segunda-feira, 26, adotará as providências necessárias para apurar as circunstâncias do óbito.

Entre as medidas adotadas estão a designação de um promotor de Justiça para acompanhar o caso e adotar todas as medidas cabíveis.

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